segunda-feira, 14 de maio de 2012

Exercício de meditação

Um ônibus lotado. Um dia de chuva. Trânsito completamente congestionado. Eu sentada, imersa no som que vem dos meus fones de ouvido, depois de uma extensa jornada de estudos.

É um silêncio de pessoas tão grande.
Uma comunhão de braços pendurados
e pernas cansadas.
São diversos os olhares, tão fixos
e tão perdidos.
Divagam pelo embaçado das janelas,
com certeza o pensamento longe.
E todos estamos aqui.

Sobrencelhas se franzem, são tantas rugas.
Tantas histórias acomodadas em um só automóvel.
O suor escorre insistentemente pela testa de alguns.
As pálpebras de outros já não obedecem o comando de ficarem abertas.
E todos estamos aqui.

Parece desesperador.
É.
Caótico.
Mas é tão real. Humano. Chega a ser tragicômico.
E as músicas do shuffle do iPod vão acertando a sequência.
Parados estamos e continuamos.

Extasiada, anestesiada. Esse estado no qual me encontro.
Analisando a pequenez humana e ao mesmo tempo
tantas vidas, tantas histórias, tantos roteiros acontecendo.
E todos estamos aqui.

E no meio de tantos olhares antropológicos,
existencialistas, sociológicos, complexos
há a sensibilidade.
Alguém percebe meu ofício, sim, eu lá, derramando ferozmente as palavras,
em meio meio a essa atmosfera louca, rouca, embaçada,
as palavras vão acontecendo, correndo, velozmente, incessantemente,
enquanto nós, aqui, parados.

Isadora Barcelos


Nota da autora: Esse episódio me ocorreu hoje e contarei os fatos objetivamente posteriormente quando tiver mais tempo, mas adianto que  foi uma experiência, no mínimo, curiosa.